Vida Monástica Contemplativa

Vida Monástica Contemplativa
"A Alegria da Consagração Monástica e Contemplativa" (tema)

segunda-feira, 17 de julho de 2017

sexta-feira, 7 de julho de 2017

ENTRE VOCÊS NÃO PODE SER ASSIM: O EXERCÍCIO DA AUTORIDADE NA VIDA RELIGIOSA CONTEMPLATIVA COMO SINAL PROFÉTICO PARA O MUNDO

ENTRE VOCÊS NÃO PODE SER ASSIM:
O EXERCÍCIO DA AUTORIDADE NA VIDA RELIGIOSA CONTEMPLATIVA
COMO SINAL PROFÉTICO PARA O MUNDO


+Edmilson Amador Caetano, O.Cist.
Bispo diocesano de Guarulhos


Foi-me pedido refletir com vocês um tema aparentemente simples, mas de difícil exposição. Demorei para conseguir um itinerário. Proponho-me partir de Jesus Cristo, da Palavra de Deus, passando por certas circunstâncias que marcam nosso tempo e tentando chegar a algumas pistas. Esta é uma metodologia análoga ao Documento de Aparecida (produzido há 10 anos nesta sala onde nos encontramos) e tem sido utilizada nas duas última edições das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora no Brasil, da CNBB.
           
PARTINDO DE CRISTO

Posto que o título que me foi dado para esta reflexão sugere o evangelho de Mateus 20,24-27, comecemos daí: “Ouvindo isso, os dez ficaram indignados com os dois irmãos. Mas Jesus, chamando-os disse: ‘Sabeis que os governadores das nações as dominam e os grandes as tiranizam. Entre vós não deverá ser assim. Ao contrário, aquele que quiser tornar-se grande entre vós seja aquele que serve, e o que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o vosso servo. Desse modo, o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida como resgate por muitos.”.  
Temos também o trecho paralelo de Marcos 10, 41-45: “Ouvindo isso, os dez começaram a se indignar-se contra Tiago e João. Chamando-os Jesus lhes disse: “Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e os seus grandes as tiranizam. Entre vós não será assim: ao contrário, aquele que dentre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor, e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos.”
            Que confusão cria a mãe dos filhos de Zebedeu! No entanto, revela o que  está arraigado no coração humano: querer dominar o outro. Ser “deus” da vida do outro. Este espírito de competição e disputa está presente quando pensamos em quem deve exercer a autoridade. Temos que ser coerentes e reconhecer o que tantas vezes acontece na Igreja e no seio de nossas comunidades quando, por exemplo, temos eleições. Quantas vezes aflora a mesquinhez humana!
O vocábulo “autoridade” (exousía) podemos interpretá-lo de uma maneira simples: ex (a partir de) ousía (essência, substância). Jesus, tantas vezes, se diz no evangelho, fala com autoridade, não como os escribas e fariseus. Jesus fala a partir da sua essência. Jesus fala com palavras humanas; age de forma humana, pois é verdadeiramente homem. Mas é também Deus. Fala e age a partir da sua natureza divina também que é amor. Ser para o outro incondicionalmente, sem exigências de reciprocidade. Para realizar o seu plano de amor, despojou-se de sua glória (kênosis) e tomou a condição de servo. O servo não é o empregado que executa ordens. O servo realiza sua tarefa de acordo com a vontade e a mente do seu patrão. Deste modo o discípulo de Jesus exerce “autoridade” a partir da essência do seu Senhor. Não é possível ter autoridade na Igreja, sem exercê-la, não somente em nome de Cristo, mas “em” Cristo. Não é possível ser autoridade na Igreja sem ter o Espírito de Jesus Cristo. Sem esta característica a autoridade exercida é idêntica a dos escribas e fariseus.
Podemos assim concluir aqui que o final das duas citações “dar a vida em resgate por muitos” é o ápice da autoridade de Jesus e da nossa autoridade “em Jesus”.
Tomemos outros dois textos:
Mc 9, 33-37: “E chegaram a Cafarnaum. Em casa, ele lhes perguntou: ‘Sobre que discutíeis pelo caminho?’ Ficaram em silêncio, porque pelo caminho vinham discutindo sobre qual era o maior. Então ele, sentou,  chamou os doze e disse: ‘Se alguém  quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos.’ Depois tomou uma criança, colocou-a no meio deles e, pegando-a nos braços, disse-lhes: Aquele que receber uma destas crianças por causa do meu nome, a mim recebe; e aquele que me recebe, não é a mim que recebe, mas sim àquele que me enviou.’
A figura da criança aqui e em outros paralelos é chave de interpretação para a atitude correta: dar importância ao que não conta. A criança exige cuidados e trabalhos. Ela ainda não “produz”. Evidentemente não se trata de fazer da autoridade algo improdutivo. Trata-se da necessidade para “ser autoridade”, passar por uma conversão. Não querer impor-se. É uma conversão transformadora. Por outro lado é também acolher o que aparentemente não conta, não traz vantagens. Até mesmo o que não tem “conserto”.
Nestes textos que temos ouvido, não é proibido querer, mas é reprovado o como se quer e para que se quer.
Lc 22,24-30: “Houve também uma discussão entre eles: qual seria o maior? Jesus lhes disse: ‘Os reis das nações as dominam, e os que as tiranizam são chamados benfeitores. Quanto a vós, não deverá ser assim; pelo contrário, o maior dentre vós torne-se como o mais jovem, e o que governa como aquele que serve. Pois qual é o maior: o que está à mesa, ou aquele que serve? Não é aquele que está à mesa? Eu, porém, estou nomeio de vós como aquele que serve.
Vós sois os que permanecestes constantemente comigo em minhas tentações; também eu disponho para vós o Reino, como o meu Pai o dispôs para mim, a fim de que comais e bebais  à minha mesa em meu Reino, e vos senteis em tronos para julgar as doze tribos de Israel.”
O que Jesus diz aos apóstolos/discípulos nestes textos, evidentemente, é válido para todos os cristãos. O interessante, entretanto, é que estes ditos não são dirigidos às multidões, como ocorre em outros episódios. Estes ditos são colocados pelas fontes evangélicas direcionados aos apóstolos. Àqueles que são as colunas da comunidade e pastores do povo.
Emblemática também é a conclusão da cena do lava-pés do evangelho de João, onde  anteriormente o diálogo com Pedro tornou-se revelador: “Vós me chamais Mestre e Senhor e dizeis bem, pois eu o sou. Se, portanto, eu, o Mestre e o Senhor, vos lavei os pés, também deveis lavar-vos os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, também vós o façais.”  (Jo 13,14-15). Pedro não aceita o modo de Jesus ser o primeiro. No texto joanino ele fará um caminho do capítulo 13 até o 21 para realmente se converter e tornar-se como o discípulo que Jesus amava. Pedro não aceita o gesto de Jesus depor o manto e cingir-se com uma toalha para lavar os pés dos discípulos. Na realidade, não é que não aceite o gesto em si. Não aceita que o primeiro ( o que exerce a autoridade sobre os demais) tenha que fazer as coisas assim. Pedro é o primeiro do colégio apostólico. Ele tem dificuldades de aceitar que a sua condição vicária tenha que ser exercida com este espírito. Nos sinóticos Jesus chama Pedro de Satanás, pois não quer pensar e agir segundo Deus. É ainda pedra de tropeço, pois quer atrapalhar a ação de Jesus. Ainda, neste grupo de capítulos de João, Pedro usará a violência para defender Jesus, cortando a orelha do servo do sumo sacerdote. Buscará o caminho da mentira, traindo Jesus por três vezes. Correrá até túmulo vazio e verá as coisas como estão, diferentemente do discípulo que Jesus amava, que viu e acreditou. A conversão de Pedro se dará na beira do mar, após a ressurreição, na pesca milagrosa, quando ele obedece à Palavra de Jesus e come dos pães e peixes que Jesus lhe oferecer. Nesta beira do mar acolherá a palavra de Jesus que lhe diz que dará glória a Deus, deixando-se cingir por outro indo para onde não quer ir.
Como último texto bíblico deste nosso “partir” cito um escrito paulino, talvez um dos mais antigos do Apóstolo: “Uma vez que Deus nos achou dignos de confiar-nos o Evangelho, falamos não para agradar aos homens, mas, sim, a Deus, que perscruta o nosso coração. Eu não me apresentei com adulações como sabeis; nem com secreta ganância, Deus é testemunha! Tampouco procuramos o elogio dos homens, quer vosso, quer de outrem, ainda que nós, na qualidade apóstolo de Cristo, pudéssemos fazer valer a nossa autoridade. Pelo contrario, apresentamo-nos no meio de vós cheios de bondade, como uma mãe  que acaricia os filhinhos. Tanto bem vos queríamos que desejávamos dar-vos não somente o Evangelho de Deus, mas até a própria vida, de tanto amor que vos tínhamos. Ainda vos lembrais, meus irmãos, dos nossos trabalhos e fadigas. Trabalhamos de noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós. Foi assim que pregamos o Evangelho de Deus.”  (1 Ts 2.4-10)
Paulo tem consciência da sua autoridade (exousía), como algo que não vem dele, mas do qual procura ser fiel servidor: agrada a Deus e não aos homens; procura não ser arrogante e buscar vantagens para si; não procura fazer coisas para ter o afeto das pessoas que lhe são confiadas. Por outro lado, o que parece rispidez é comparado ao amor de mãe: ternura e doação total. Não há contradição em colocar na verdade do Evangelho, ainda que possa doer ao outro, e amor verdadeiro.

MARCAS DO NOSSO TEMPO

A vida monástica e contemplativa é chamada a ser profética nesta geração, com toda a sua tradição e testemunho. Se autoridade é serviço e serviço se presta ao outro, é neste momento com suas marcas e apesar delas, que se deve servir.
Quero reportar aqui, simplesmente, alguns textos das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora no Brasil, (DGAE) 2015-2019, da CNBB. Creio que seja importante também para a vida monástica e contemplativa, ainda que esta vida se desenvolva, principalmente dentro dos claustros e muros dos nossos mosteiros, com toda sua fecundidade apostólica.
Na mesma linha de reflexão do Documento de Aparecida, as DGAE falam de “mudança de época”.  Muitas coisas enriquecedoras aparecem, sem dúvida. Creio, no entanto, que para nossa reflexão seja de capital importância o que marca negativamente. “Vivemos uma época de transformações profundas. Não se trata apenas de uma ‘época de mudanças’, mas de uma mudança de época. (...) Mudanças de época, de fato, afetam os critérios de compreensão, os valores mais profundos, a partir dos quais se afirmam identidades e se estabelecem ações e relações. Além disso, constata-se o aumento progressivo do relativismo, a ausência de referências sólidas, o excesso de informações, a superficialidade, o desejo a qualquer custo de conforto e facilidades, a aceleração do tempo, trazendo desafios existenciais, produzindo incertezas, precariedade, insegurança, inquietação.” (DGAE 19.21)
Creio que neste pouco tempo de exposição que temos, é bom salientar alguns aspectos que, penso, atingem mais concretamente nossas comunidades monásticas e contemplativas.
·         Individualismo que traz consigo a dificuldade da vida em comunidade. Aqui pensa-se em si em primeiro, segundo e terceiro lugar. O egoísmo pode ser grande inimigo em nossas comunidades.
·         Relativismo que faz o ético e moral ser o ‘bom’ e não o ‘bem’, portanto é sempre o subjetivo que comanda. O relativismo leva ao individualismo e vice-versa.
·         Fundamentalismo. Ainda que pareça contraditório com o que foi dito acima, vivemos dentro de um fundamentalismo. Talvez a insegurança gerada por tantas características da mudança época, o fundamentalismo, em vários aspectos, principalmente o legalista, é visto como tábua de salvação. Muitas vezes em nossas comunidades para resolver situações apela-se ao “sempre foi assim”, a interpretação literal e legalista da Regra e das sadias tradições de nossas Ordens e Congregações.
Estas três características mencionadas acima podem fazer cada um de nós refletir sobre tantas situações que vivemos em nossas comunidades e até mesmo na acolhida dos nossos jovens vocacionados e vocacionadas.

ATITUDES PROFÉTICAS

 Esta reflexão partiu de uma citação do evangelho de Mateus. As comunidades cristãs  que estão como pano de fundo do evangelho de Mateus, são comunidades formadas por judeus-cristãos que experimentaram a expulsão dos ambientes celebrativos e culturais da tradição judaica. Por outro lado, experimentaram a destruição do templo de Jerusalém e toda opressão inclemente do Império Romano. Neste período o judaísmo é reassumido por grande parte de escribas e fariseus que radicalizam a separação dos pagãos e os cristãos (mesmo sendo de origem judaica) são considerados traidores e hereges. Estas comunidades são animadas pelos ensinamentos de Jesus a darem uma resposta como que alternativa a esta sociedade e cultura que se impõem. Antes de ver a missão da comunidade tendo como ponto de partida a autoridade, é preciso que a própria comunidade tenha consciência da sua existência e missão.
O capítulo 18 do evangelho de Mateus apresenta um retrato de atitudes importantes para a comunidade cristã: converter-se, tornar-se como criança; ser radical no discipulado para não escandalizar; salvar o irmão que se perde; perdoar sempre.  Esta comunidade se apresenta assim, como a comunidade do “Pai que está no céu”:
v. 10: “os seus anjos veem constantemente a face de meu Pai que está nos céus”
v.14: “ não é da vontade do vosso Pai que está nos céu, que um destes pequeninos se perca.’
v. 19: “será concedido por meu Pai que está nos céus”
v. 35: “Eis como o meu Pai celeste agirá convosco...”
O individualismo uma das marcas da mudança de época, pode acarretar o autoritarismo/legalismo/fundamentalismo. Esta mentalidade reflete também em nossas comunidades contemplativas ( e em todas as comunidades cristãs). Parece difícil lidar com a diversidade. É preferível resolver as coisas dando ordens. A Congregação para os Institutos de vida consagrada e as sociedades de vida apostólica,  publicou em 2008 uma Instrução com o título “Faciem tuam, Domine, requiram’  sobre o serviço da autoridade e a obediência.  A obediência é suscitada por uma espiritualidade de comunhão, não em função da força da autoridade constituída.
Primeiramente, a pessoa constituída em autoridade deve se revestir do espírito evangélico da autoridade. “Embora assumir as responsabilidades próprias da autoridade possa vir a aparecer hoje como um fardo particularmente pesado, e requeira a humildade do fazer-se servo ou serva dos demais, sempre é bom, todavia, recordar as palavras severas que o Senhor Jesus dirige àqueles que sentem a tentação de revestir de prestígio mundano a sua autoridade: ‘Quem quiser ser o primeiro entre vós, seja o vosso servo.. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mt 20,27-28).
Quem, no desempenho do próprio ofício, procura um meio para destacar-se ou auto-afirmar, para fazer-se servir ou para submeter os demais, coloca-se claramente fora do modelo evangélico de autoridade. (...) A obediência, mesmo nas melhores condições, não é fácil; mas se vê facilitada quando a pessoa consagrada constata que a autoridade se coloca a serviço da fraternidade e da missão, com humildade e empenho: uma autoridade que, apesar de todos os limites humanos, procura representar no seu agir gestos e sentimentos do bom Pastor. (Faciem tuam, 21)
 Em segundo lugar, é preciso atenção a coisas peculiares do nosso tempo. Algo que marque presença.  Tenho para comigo que um dos escritos mais proféticos para a Igreja, como um todo, de São João Paulo II é a Carta Apostólica Novo Millennio ineunte. Após toda a preparação para o novo milênio e a celebração do jubileu com tantos pedidos de perdão e reconciliação, o que fazer? Como deve ser a Igreja? Que espiritualidade buscar? A resposta foi: uma espiritualidade de comunhão. “Fazer da Igreja a casa e a escola da comunhão: eis o grande desafio que nos espera no milênio que começa, se quisermos ser fiéis  ao desígnio de Deus e corresponder às expectativas mais profundas do mundo.” (NMI 43) 
  Sem dúvida, um sinal que distingue na Igreja e também culturalmente a vida monástica e contemplativa das nossas comunidades é a clausura. Seja qual for o tipo ou o “grau”. Acredito, porém, que possa soar como heroico para uns, algo inatingível para outros e para outros tantos ainda, um despropósito em nossos dias. Seguramente pessoas que não entendem o seu significado e importância.  Pensando, porém, na vida contemplativa como sinal profético para o mundo, é a vida da comunidade (comunhão, alegria, fraternidade, comunhão de bens etc) que exerce com potência a sua missão em nossos dias. Aqui, então, é fundamental a missão da autoridade que, além de revestir-se do espírito evangélico deve gerar a espiritualidade de comunhão que, de modo algum deixa de ser evangélica. “O caminho de santidade converte-se assim em percurso que toda a comunidade percorre junta; não apenas caminho de indivíduo, mas sempre mais uma experiência comunitária: no acolhimento recíproco na partilha dos dons  sobretudo do dom do amor, do perdão e da correção fraterna; na busca comum da vontade do Senhor, rico de graça e de misericórdia; na disponibilidade em fazer-se cada um responsável pelo caminho do outro.
No hodierno clima cultural, a santidade comunitária é testemunho convincente, talvez ainda mais que a individual: ela manifesta o perene valor da unidade, dom a nós deixado pelo Senhor Jesus. “ (Faciem tuam, 19)
Aqui a autoridade tem que vivenciar um ministério tão especial e carismático: o da escuta. É preciso escutar o outro para discernir a vontade de Deus. Sem dúvida, é mais fácil dar ordens dizendo “está escrito”, “está na lei”. Determinar  coisas  ouvindo os outros é mais difícil e pode dar a impressão que a autoridade é manipulável. “O discernimento comunitário não substitui a natureza nem a função da autoridade, a quem cabe a decisão final; todavia, a autoridade não pode ignorar que a comunidade é o lugar privilegiado para reconhecer e acolher a vontade de Deus(...)Deve-se observar, finalmente, que uma comunidade não pode viver em estado permanente de discernimento. Depois do tempo de discernimento, vem o tempo da obediência, isto é, da execução de quanto foi decidido: em ambos os tempos, é mister que se viva com espírito obediente.” (Faciem tuam 20).
 Tanto “Faciem tuam”, como são João Paulo II ao falarem da espiritualidade de comunhão como presença profética, não falam como se fosse uma novidade, mas retomar uma sabedoria antiga, própria da Tradição da Igreja: “Com tal finalidade, é preciso assumir aquela antiga sabedoria que, sem prejudicar em nada o papel categorizado dos pastores, procurava incentivá-los à mais ampla escuta de todo o povo de Deus. É significativo o que São bento lembra ao abade do mosteiro: ‘É frequente o Senhor inspirar a  um mais jovem um parecer melhor.’ (RB 3) E S. Paulino de Nola, exorta: “dependemos dos lábios de todos os fiéis, porque, em cada fiel, sopra o Espírito de Deus.”(NMI 45).  “O exercício da autoridade implica que ela ouça de boa vontade as pessoas que o Senhor lhe confiou. São Bento insiste: ‘O abade convoque toda a comunidade... todos sejam chamados a conselho... muitas vezes o Senhor revela ao mais moço o que é melhor.”(RB3)(Faciem tuam, 20). A Instrução ainda, dentro deste âmbito da espiritualidade de comunhão cita  os capítulos 71 e 72 de regra beneditina, bem como a Regra Menor de São Basílio.

O SUCESSO DA AUTORIDADE DE JESUS

Não existe receita para o ‘sucesso’ do exercício da autoridade Jesus Cristo. Não, pelo menos, quando pensamos em sucesso humano. Temos estradas e caminhos a percorrer. Os resultados, muitas vezes, não os vemos. Aquilo que deve nos dar certeza e alegria é que agimos tendo em nós os mesmos sentimentos de Jesus.
No evangelho de João Jesus realizou muitos “sinais” que caminham num crescente  para indicar que Ele recria a humanidade no poder da sua ressurreição. O último dos ‘sinais’ é a ressurreição de Lázaro que causa grande fama humana a Jesus, a ponto de até os gregos desejarem vê-lo. Talvez para os discípulos tenha sido um momento de dizer: “ Agora sim, tudo vai dar certo. Finalmente a sua autoridade foi reconhecida.” No entanto, a resposta de Jesus a Filipe e André, não foi a esperada: “É chegada a hora em que o será glorificado o Filho do Homem. Em verdade, em verdade, vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto. Quem ama sua vida a perde e quem odeia a sua vida neste mundo guarda-la-á para a vida eterna....Minha alma agora está conturbada. Que  direi? Pai, salva-me desta hora? Mas foi precisamente para isso que eu vim. Pai, glorifica o teu nome.” (Jo 12, 23-25.27-28)
A autoridade em nossas comunidades contemplativas e monásticas será grande sinal profético para os nossos dias, em última instância, quando depois de tudo (serviço, acolhida, escuta, espiritualidade de comunhão), ainda restar a missão de ser o grão de trigo que cai na terra e morre e produz frutos para a vida eterna.







quinta-feira, 29 de junho de 2017

HOMÍLIA DO EXMO. REVMO. DOM GIOVANNI D’ANIELLO, NÚNCIO APOSTÓLICO NO BRASIL

...
“Ninguém vos poderá tirar a vossa alegria!”



Caríssimas irmãs, esta frase que acabamos de ouvir do Evangelho acende no nosso coração uma esperança renovada, devolve à nossa fé uma certeza que não pode ser esquecida, deposita em nossos corações uma promessa verdadeira e que é a fonte da nossa alegria: o Senhor estará sempre conosco!

De fato, a alegria do Evangelho nasce da presença de Jesus que nos fala, nos orienta e nos acompanha. Que grande alegria é poder estar do lado d’Ele, dedicar-se ao diálogo freqüente com o Senhor e sentir no coração a Sua presença consoladora que entusiasma e sustenta; que dá coragem e afasta o mal e que dissipa todo medo, como nos garantia a primeira leitura.

O Papa Francisco, em sua Carta ‘Alegrai-vos’, escrita por ocasião do Ano da Vida Consagrada (2014), nos recordava que “esta é a beleza da consagração: é a alegria, a alegria...”. E o Santo Padre seguia nos lembrando de que “não há santidade na tristeza”, enquanto nos repetia a exortação de São Paulo aos Tessalonicenses: “não andeis tristes como os que não têm esperança” (1Ts 4, 13).[1]

Caríssimas, é providencial que neste dia em que nos reunimos para louvar a Deus pela vida consagrada, especialmente por todas as irmãs que se dedicam à oração, à contemplação e ao louvor a Deus na vida de clausura, fazemos também memória a São Felipe Néri, o “santo da alegria”.

De fato, a vida na clausura não pode ser um fardo que a disciplina exige, nem um suplício suportado apenas pela obediência. Ao contrário, deve ser um espaço de alegria, onde o coração se alimenta de amor e se expande na caridade.

A vida de clausura não é também uma fuga do mundo nem uma negação da vida em sociedade. Mas, é, antes, um refúgio em Deus, um santuário de caridade e preces, um encontro mais íntimo com o Senhor. É a escolha daquela ‘melhor parte’ que não vos será tirada e que o mundo não conhece e, por isso, não entende.

É verdade, irmãs, que a clausura tem a finalidade de manter entre as religiosas um clima de recolhimento, de silêncio, de oração para uma mais perfeita busca de união mística com Deus. Contudo, e apesar desta separação física com "o mundo", sabemos que as religiosas mantêm-se intimamente unidas à humanidade e aos seus respectivos problemas, através das suas orações contínuas oferecidas como intercessão. Pensemos no exemplo de Santa Teresinha do Menino Jesus, que nunca saiu do seu convento na França, mas foi considerada como padroeira das missões.

Sim, a missão da Igreja depende mais das orações e dos joelhos dobrados diante do altar que dos nossos modernos instrumentos e técnicas de evangelização e dos nossos talentos pessoais. É justamente por isso que o Papa Francisco, por exemplo, pede continuamente que rezemos por ele.

Como é bom saber, queridas irmãs, que ainda hoje tantas almas consagradas se dedicam a esta tarefa fundamental na Igreja: a oração. Vigiar e orar ainda são as mesmas orientações que o Senhor continua nos fazendo.

Oração e alegria são o binômio através do qual o amor se expande e cativa; são, também, um verdadeiro instrumento vocacional. Quantas jovens já se deixaram seduzir e ainda hoje continuam respondendo ‘sim’ a Deus, justamente pelo testemunho e entusiasmo de vocês! Muito obrigado pelo testemunho de fé e de vida de oração que vocês nos dão, a nós e a este mundo que precisa cada vez mais de Deus.

Agora, quero dirigir-me às superioras dos Conventos, dos Mosteiros, das Casas de Formação de todas as Congregações e Institutos aqui reunidos: Caríssimas, a tarefa de dirigir uma casa religiosa, esta nobre missão que lhes foi confiada, precisa ser nutrida constantemente na fonte originária do vosso Carisma, na fidelidade àquela inspiração infundida no coração dos santos fundadores e santas fundadoras de cada Ordem, de cada Congregação.

Estimulem, sempre mais, o conhecimento, a disciplina e a prática do Carisma que o Espírito Santo infundiu no coração daqueles santos e santas. Esta é a estrada segura que vos manterá sempre unidas à comunhão da Igreja e entre si, será o princípio capaz de produzir a unidade e a riqueza que proporciona a diversidade de dons.

Lembremos, aqui, as palavras de São João Paulo II em sua Carta aos religiosos e religiosas da América Latina (1990): “A mesma generosidade e abnegação que impeliram os Fundadores devem levar-vos a vós, seus filhos espirituais, a manter vivos os seus carismas, que continuam – com a mesma força do Espírito que os suscitou – a enriquecer-se e adaptar-se, sem perder o seu caráter genuíno, para se colocarem ao serviço da Igreja e levarem à plenitude a implantação do seu Reino[2].

Cuidem, igualmente, para que a observância dos votos religiosos não seja fruto somente de uma compreensão teórica ou de uma aceitação resignada. Mas, seja expressão de amor, renúncia livre e consciente de almas que louvam a Deus em espírito de pobreza, obediência e castidade.

E a todas vós, queridas religiosas, tenham sempre presente em suas intenções aquela recordação pelos mais necessitados, pelos doentes e por todos os que padecem algum tipo de violência. Vivemos em “uma sociedade marcada pelo conflito, pela convivência difícil entre culturas diversas, pela prepotência sobre os mais fracos e por tantas desigualdades”[3].

Por isso, o vosso testemunho de oração e alegria se faz ainda mais necessário. Tenham a certeza de que as vossas preces são como um bálsamo para este mundo machucado.

Que o vosso coração se alegre, porque Deus vos escolheu como filhas preferidas e confiou a cada uma de vocês a tarefa de, através da intercessão poderosa de suas preces, irrigar este mundo com a seiva do amor divino.

E que esta missão seja cumprida sempre com aquela alegria a qual meditamos: “a alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus”.[4]

Nesta Eucaristia, Sacramento da presença do Senhor, vamos oferecer ao Pai, junto com o Pão e o vinho, as nossas alegrias e a nossa vida. Vamos ‘cantar a Deus aclamações de alegria’ por todas as graças que Ele tem concedido à Igreja através das orações das irmãs de todos os claustros. Vamos suplicar que Ele permaneça sempre conosco, apesar das tristezas, das dores e dos sofrimentos, na certeza de que, na Sua graça, o nosso coração sempre se alegrará.

Que a vossa vida continue sendo uma expressão viva da confiança na presença de Deus e na Sua Admirável Providência. Vocês, que como São Felipe Néri, preferiram o Paraíso e o amor de Deus às honras e glórias deste mundo, compreendam sempre mais que “renunciar a si mesmo, tomar a cruz a cada dia e seguir Jesus é uma verdadeira alegria”. E eu vos garanto, queridas irmãs, como disse Jesus hoje, que “ninguém vos poderá tirar a vossa alegria!”

Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo.


Dom Giovanni, d’Aniello

Núncio Apostólico

Aparecida, 26 de maio de 2017.





[1] Papa Francisco, Carta apostólica Alegrai-vos, às pessoas consagradas para proclamação do Ano da Vida Consagrada, 2014.
[2] Carta Ap. Os caminhos do Evangelho, aos Religiosos e às Religiosas da América Latina, por ocasião do V centenário da Evangelização do Novo Mundo (29 de Junho de 1990), 26: L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 29/VII /1990), 360. In Papa Francisco, Carta apostólica às pessoas consagradas para proclamação do Ano da Vida Consagrada, 2014.
[3]  Cf. Papa Francisco, Carta apostólica Alegrai-vos, às pessoas consagradas para proclamação do Ano da Vida Consagrada, 2014.
[4] Papa Francisco, Exortação Apostólica Evangelii gaudium, N.1,

CONFERÊNCIA DOM GIOVANNI - NÚNCIO APOSTÓLICO

Giovanni d’Aniello 
N. Ap. 
Em.mo Senhor Cardeal,
Exc.mo Dom Orlando Brandes, 
Ex.mo Dom Jaime Spengler,
Excelências,
Reverenda Ir. Inês,
Reverendos Superiores,
Reverendos Consagrados de vida Monástica e Contemplativa,

Caríssimos amigos no Senhor!

1. É com alegria que dirijo hoje estas palavras a vós, consagrados, ao término do II Encontro Nacional de Vida Monástica e Contemplativa. Apresento a minha respeitosa saudação ao Em.mo Cardeal João Braz de Aviz, Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica e exprimo-Lhe minha pessoal alegria em tê-lo entre nos, neste importante encontro.
Cumprimento também ao Ex.mo Dom Orlando Brandes, Arcebispo de Aparecida e o agradeço pela cordialidade e amizade que sempre me demonstra.
Ao Ex.mo Dom Jaime Spengler, Arcebispo de Porto Alegre e Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada, como também à Ver.da Irmã Inês Ribeiro, Presidente da CRB, quero não somente expressar meus agradecimentos pelo convite, mas também minha felicitação pela iniciativa de convocar este II encontro nacional, à sombra do tricentenário da descoberta da imagem de N. Sra. da Conceição Aparecida nas águas do Rio Paraíba do Sul e passados tão poucos dias do centenário da primeira aparição da Virgem de Fátima na Cova da Iria.
A todos vocês, queridos amigos, os votos mais sinceros de que estes dias de reflexão e oração produzam em cada um de vocês um novo elo para ser sempre testemunhas autênticos do amor de Deus pela humanidade.
Mesmo imaginando que o Em.mo Cardeal Braz de Aviz já o fez, quero igualmente, em nome do Santo Padre Francisco, que reza convosco e por vós, expressar a gratidão pelo dom da vocação de cada um dos presentes, pois vocês são na Igreja como estes pequenos rios que deslizam dentro das montanhas. Silenciosos, não deixam de oferecer-nos sua água com descrição, e, desta maneira, fazem dos nossos vales uma terra fecunda da graça de Deus. A vossa oração, o louvor a Deus e a entrega escondida de vossas vidas é um dos mais eloqüentes testemunhos das bênçãos que se renovam sobre a Igreja e a humanidade.
Sempre recordo aos meus irmãos no Episcopado, que é um inestimável presente contar com homens e mulheres que dão vida aos Mosteiros nas inúmeras Dioceses brasileiras, pois os contemplativos nos recordam radicalmente a beleza de Deus e, por excelência, a nossa vocação última de maravilharmo-nos com Ele para testemunhá-Lo de diversos modos.
Representais para todos nós o bom odor do Eterno e nos reavivais através do silêncio de vossas casa, que estamos chamados a anunciar através de nossa vocação específica, a presença amorosa e misericordiosa da Santíssima Trindade, que adorais e celebrais no piedoso Sacrifício Eucarístico, no amor ao Ofício Divino, à Lectio Divina e na solidão de vossas celas.

2. O tema de vosso encontro, “A alegria da consagração monástica e contemplativa”, ajuda-me a recordar um episódio que culmina numa das maiores alegrias de que fala a Sagrada Escritura, isto é, a viagem dos Magos. Desde já, peço-vos perdão por trazer em pleno tempo pascal algo tão próprio do Natal: “Eles, revendo a estrela, alegraram-se imensamente” (cf. Mt 2, 10).
Estes dias de oração, reflexão e estudo, seguramente, vos serviram para recordar que a vossa consagração é esta estrela, tal como foi para os Magos, um sinal e apelo de Deus para que o ser humano não deixe de prostrar-se e participar do reino dos céus, pois somente assim o mundo encontrará a verdadeira felicidade com serenidade, justiça e paz, sendo esta a vossa fecundidade apostólica que o Concílio Vaticano II reafirmou no Decreto Perfectae caritatis, (cf. n. 8).
Entender que a vossa entrega é esta estrela que Deus manda para guiar e indicar o que espera dos homens, deve resultar num primeiro questionamento: como anda a minha alegria diante desta missão? Na oração e no sacrifício escondido, podemos mensurar a qualidade de nosso contentamento e a realização com a vocação recebida. A luz do chamado do Senhor, se sabemos acolher com fé, faz que o sentido de nossa vida fique claro e todas as peças, como as pedras de um mosaico divino, passam a ocupar uma harmoniosa importância.
Vejo-vos como aqueles que escolheram caminhar seguindo a estrela de Deus e abandonaram no “fugas mundi” os vagalumes do orgulho, prazer, sucesso, egoísmo e dos brilhos sedutores que piscam no escuro da alma, mas que sempre são fugazes. 

 3. A oração nos faz descobrir a alegria da vida monástica e contemplativa, pois ela é a resposta do homem à procura de Deus que tão bem nos diz S. Bento, no Prólogo de sua Regra: “e procurando o Senhor na multidão do seu povo o seu operário”, escolhe e vem ao encontro como amigo. Por isso, Bento XVI referiu-se aos consagrados não com um nome específico, mas com umas palavras que definem um programa de vida: “sois testemunhas da presença transfigurante de Deus” (cf. Bento XVI, Discurso aos Religiosos da Diocese de Roma, 10 de dezembro de 2005).
Por outro lado, S. Bento orienta o mestre de noviços ao receber quem bate à porta de um Mosteiro, não lhe ressaltando algum elenco de virtudes ou condutas, mas sublinhando como principal critério de avaliação, se verdadeiramente procura a Deus na oração. Rezar é testemunhar a presença transfigurante de Deus! O consagrado que cuida da vida interior descobre a alegria da vocação como adiantamento das alegrias eternas e conclui-se feliz já nesta vida, como nos disse o Senhor no Evangelho de S. Lucas, “Em verdade eu vos digo, não há quem tenha deixado casa, mulher, irmãos, pais ou filhos por causa do Reino de Deus, sem que receba muito mais neste tempo e, no mundo futuro, a vida eterna” (cf. Lc 18, 29-30).
A vida de oração alimenta a alegria porque vos previne de dois perigos:
- A murmuração, que é corrosiva à contemplação e à convivência com os demais, pois é uma porta aberta para a edificação de um coração amargurado. Toda amargura na vida monástica e contemplativa dá-se a partir do esquecimento de que um servo de Deus opta por uma vida feliz, mas não obrigatoriamente fácil.
- A tristeza ou acedia, que segundo o Abade Cassiano é uma doença espiritual como uma inquietação interior que sempre presume o defeito nas coisas ou no outro, nunca em nós mesmos.
Enfim, aprendemos de S. Teresa de Jesus, no Livro da Vida, ao comentar às Irmãs que “quem procura agradar a quem ama, anda contente com tudo que o agrada”, logo a vossa alegria, que é fruto da primazia de oração, faz com que a sociedade, tão ausente de valores sagrados, valorize o primado de Deus. Não esqueçais que a vossa oração é cooperadora de toda atividade evangelizadora e grande consolação para os Bispos, Sacerdotes, Religiosos de vida ativa, especialmente, os missionários.

4. Detenho-me sobre o sacrifício, que é o outro viés que sempre vos auxiliará na constatação da alegria vocacional, porque o ideal que Jesus propõe é o da abnegação amorosa, do sacrifício abraçado, a cada dia, para ir atrás do verdadeiro Amor. “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser guardar a sua vida, a perderá; e quem perder a sua vida por causa de mim, a encontrará” (cf. Mt 16, 24-25).
Nos Fioretti de São Francisco, é citado um ditado italiano: “Chi non dà quello che gli duole, non riceve quello che vuole – quem não dá o que lhe dói, não recebe o que quer”, muitas vezes esquecido na vida esponsal com Cristo. O santo de Assis nos mostra que o egoísmo sufoca a alegria, e a proteção excessiva do “eu” nos leva ao esfriamento com o Tu de Deus e à obstrução da graça.
Se passais pela tentação da preguiça ao sacrificar-se não esqueçais como sucedeu junto de Cristo no Calvário, a cruz rejeitada afundou o mau ladrão e a cruz aceita com humildade, com amor, salvou aquele homem que se transformou em bom ladrão. Em que consistem os vossos sacrifícios? Em cruzes procuradas; enviadas ou permitidas por Deus ou em cruzes fabricadas ou inventadas pelos vossos defeitos?
A fábrica das nossas falsas cruzes tem uma fonte que se chama amor-próprio, este é um amor bem pequeno e de escasso valor.
Peço-vos que acrediteis o quanto a Igreja se apóia em vossos sacrifícios e penitências, tão necessários para o tempo hodierno. A mensagem da Virgem em Fátima deve animar-vos a uma redescoberta do que é reparar e desagravar. Vossas casas devem gerar santos que conhecem o poder da reparação através de uma rotina de vida que não é exercício de repetição, porém renúncia voluntária movida por amor. É belíssimo contemplar em vosso rosto a alegria de dar alegrias!

5. Ao afirmar o apreço e necessidade da Igreja a respeito de vossa fidelidade, gostaria de recordar-vos que se faz imprescindível vislumbrar a alegria de vossa consagração a partir da doutrina da Comunhão dos Santos.
A unidade invisível do Corpo Místico de Cristo possui múltiplas manifestações visíveis e assim temos a certeza de que a vossa entrega é sustentada pela comunhão de bens espirituais que existem entre os fiéis que constituem a Igreja triunfante, purgante e militante, principalmente, no Santo Sacrifício da Missa.
Como Representante do Romano Pontífice, expresso com particular veneração o meu intuito de fazer-vos perceber a cercania dos fiéis católicos à vossa opção de reluzir com valentia a dimensão totalizante da “sequela Christi” e recordo-vos o apelo do Papa Francisco em sua recente Constituição Apostólica Vultum Dei Quaerere, “sejam faróis, para os vizinhos e especialmente para os distantes. Sejam tochas que acompanham a viagem de homens e mulheres na noite escura do tempo. Sejam sentinelas da manhã anunciando o nascer do sol” (cf. Francisco, Constituição Apostólica Vultum Dei Quaerere, 29 de junho de 2016).

Que pela intercessão materna de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, a vida monástica e contemplativa no Brasil ensine a todos nós o que nos falou uma grande contemplativa no meio do mundo, a Santa Madre Teresa de Calcutá: “o que conta não é a quantidade de nossas ações, mas a intensidade do amor que colocamos em cada uma delas”. Deus vos abençoe e muito obrigado! Rezeis pelo Papa e por mim!

+ Giovanni d’Aniello
N. Ap.
Aparecida, 27 de Maio de 2017

terça-feira, 6 de junho de 2017

MENSAGEM FINAL


Reunidos sob o manto de Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, nos 300 anos do encontro da venerada imagem nas águas do Rio Paraíba, nós, monges contemplativos e monjas contemplativas, estivemos reunidos, de 23 a 27 de maio de 2017, no Santuário Nacional de Aparecida, para tratar de assuntos importantes da Vida Monástica e Contemplativa no Brasil. Estivemos reunidos na emblemática sala onde, precisos 10 anos atrás, o Santo Padre Bento XVI presidiu o CELAM, ocasião em que emanou o Documento do CELAM normativo para a América Latina, e que no Pontificado do Papa Francisco tornou-se conhecido, amado e vivido por toda a Igreja universal. De acordo com São Bernardo, esta sala se tornou Auditório do Espírito Santo. E aqui nos reunimos para recordar e viver o que a Igreja nos pede hoje como Consagrados Contemplativos.
Depois do I Encontro, em 2012, este II Encontro Nacional teve como tema principal “Eis como é bom e agradável estarmos unidos e felizes!” (Salmo 133), com o lema “A alegria da Consagração Monástica e Contemplativa”. Ainda que este Encontro não comportou aspectos jurídicos e doutrinários, foi muito importante por ser a reunião das grandes famílias espirituais de Vida Monástica e Contemplativa presentes em nosso Brasil.
Nós tivemos conferências, partilhas e experiências muito valiosas, que nos proporcionaram ver e ouvir as alegrias e dores da Vida Monástica e Contemplativa no Brasil. Estamos agradecidos à Mãe Igreja, e neste Ano Nacional Mariano, sob as bênçãos de Nossa Senhora Aparecida, agradecidos por podermos refletir sobre a Vida os tempos atuais no momento histórico pelo qual passa o nosso país.
No primeiro dia, refletimos mais intensamente sobre a Mística do encontro com Deus e com o irmão, reconhecendo que o outro é o Cristo.
No segundo dia, fomos iluminados pelo tema Profecia, Anúncio da Alegria na Vida Religiosa Consagrada, pois, embora estejamos dentro do claustro, a Vida Monástica Religiosa Contemplativa tem o seu profetismo, como dizia o Cardeal Schuster: “O púlpito do monge é o coro”.
No terceiro dia, refletimos sobre a Esperança, Luzes e Perspectivas diante das crises, da falta de perseverança e diminuição do número de vocações, mas sem perder a certeza que o Senhor é fiel. Ele agirá em cada um de nós.
No último dia, tivemos esclarecimentos jurídicos e canônicos, com a presença do Excelentíssimo Senhor Núncio Apostólico, D. Giovanni d’Aniello, que presidiu duas das Santas Eucaristias e nos dirigiu palavras que foram recebidas como vindas do próprio sucessor de Pedro.
Estamos agradecidos à CNBB, na pessoa do Presidente, Dom Sérgio da Rocha. Estamos agradecidos à CRB, na pessoa de sua Presidente, Ir. Maria Inês Vieira Ribeiro, por ter mais uma vez convidado toda a Vida Monástica e Contemplativa para este Encontro. Também ao Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, D. João Braz de Aviz, que esteve presente durante todo o Encontro. Da mesma forma ao Bispo Referencial da CNBB para os Ministérios Ordenados e Vida Consagrada, D. Jaime Spengler, ofm; e igualmente a todos os demais Assessores da CRB Nacional e a todas as grandes famílias aqui muito bem representadas, especialmente as Carmelitas, Beneditinas, Clarissas, Concepcionistas, Passionistas, Cistercienses, Filhos da Pobreza do Ssmo Sacramento, Dominicanas, Bom Pastor e Contemplativas de Sion.
Estamos agradecidos/as a Deus por sermos cristãos/as, por sermos monges e monjas. Que em tudo seja Deus glorificado. Que neste ano de graças especiais, nos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida, voltemos para nossas casas com as nossas mãos unidas como as de Nossa Senhora que, após o atentado, não foram destruídas, e que mostremos o sinal da oração da nossa consagração.

Que o Senhor nos ajude e nos dê sua graça e paz.
Que em tudo seja Ele bendito e glorificado.


Aparecida,  27 de maio de 2017.

Monjas e Monges presentes no II Encontro Nacional da Vida Monástica e Contemplativa.


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